28 de outubro de 2012

Jogo do Contente


"O jogo é exatamente encontrar, em tudo, alguma coisa para ficar contente, não importa o quê"
Pollyana


- Que susto me pregou, Miss Pollyanna! - gritou Nancy, enquanto corria em direção ao rochedo do qual Pollyanna tinha acabado de deslizar. 
- Assustou-se? Ah, desculpe, mas não precisa se preocupar comigo, Nancy. Papai e as senhoras da Caridade também se preocupavam, até que se convenceram de que eu sempre voltava bem. 
- Mas eu nem sabia que você tinha saído de casa - exclamou Nancy, agarrando a mão dela e ajudando-a a descer. - Não a vi sair, nem ninguém viu. Até parece que voou do telhado. 
- É verdade, quase voei. Desci pela árvore! Nancy parou bruscamente. 
- Desceu por onde? 
- Desci pela árvore, junto da minha janela. 
- Minha Nossa Senhora! - exclamou Nancy. - Nem imagino o que a sua tia dirá quando souber! 
- Quer saber? Eu conto para ela, e aí você pode descobrir - prometeu a menina muito alegre. 
- Por favor, não diga nada! 
- Por quê? Não me diga que ela se preocupa! - respondeu Pollyanna imperturbável. 
- Não... quer dizer, sim. Bem, não importa. Não estou interessada em saber o que ela pode dizer - disse Nancy determinada em evitar que Pollyanna fosse repreendida. - Mas é melhor nos apressarmos. Eu tenho que lavar a louça. 
- Eu ajudo - prometeu Pollyanna. 
- Oh, Miss Pollyanna! Nem pense nisso. 
Houve um breve silêncio. O céu escurecia rapidamente. Pollyanna agarrou-se com firmeza ao braço de sua amiga. 
- Apesar de tudo, estou contente que você tenha ficado um pouco assustada, porque assim veio atrás de mim. 
- Pobrezinha! Deve estar com fome, também. Receio que tenha que comer apenas pão e leite comigo na cozinha. Sua tia ficou zangada de não ter aparecido para o jantar. 
- Mas eu não podia. Estava lá em cima. 
- Sim, mas ela não sabia disso - observou Nancy, com vontade de rir. - Sinto muito pelo pão e leite. - Ah, eu não. Estou contente. 
- Contente? Por que? 
- Porque gosto de pão e leite, e porque vamos comer juntas. Eu não vejo nenhum problema em não ficar contente com isto. 
- Você parece não ter dificuldade para ficar contente com tudo que acontece - respondeu Nancy, recordando as tentativas de Pollyanna para ficar contente com o quartinho do sótão. 
Pollyanna sorriu docemente. 
- Pois o jogo é assim mesmo, não sabe? 
- Jogo? Que jogo? 
- Sim, o "jogo do contente". 
- Sobre o que você está falando, menina? 
- É do jogo. Papai me ensinou, e é lindo - disse Pollyanna. - Nós o jogamos desde que eu era pequena. Eu ensinei para as senhoras da Caridade e algumas delas também o jogavam. 
- Mas o que é? Eu não entendo muito de jogos. 
Pollyanna riu de novo, porém com um suspiro. Seu rosto parecia tristonho. 
- Começamos a jogá-lo quando recebemos umas muletas na coleta de doações. 
- Muletas? 
- Sim, muletas. Eu queria uma boneca e papai escreveu pedindo uma. Mas, quando chegaram as doações, não havia nenhuma boneca, e sim umas muletas para criança. Uma senhora as enviou pensando que poderiam ser úteis para alguém. E foi assim que começamos. 
- Mas não estou vendo nenhum jogo nisso - declarou Nancy, quase irritada. 
- O jogo é exatamente encontrar, em tudo, alguma coisa para ficar contente, não importa o quê - respondeu Pollyanna com ar sério. - E começamos com as muletas. 
- Eu não vejo nada para ficar contente. Receber um par de muletas quando queria uma boneca! Pollyanna bateu palmas. 
- É isso - gritou ela - eu também não percebi logo e papai teve que me explicar. - Pois então me explique - retorquiu Nancy, impaciente. 
- Pois o jogo consiste em ficar contente porque não precisamos delas! - exclamou Pollyanna, triunfante. - Veja como é fácil quando se sabe. 
- Que coisa estranha! - exclamou Nancy, olhando Pollyanna com ar receoso. 
- Estranho nada! É lindo! - continuou Pollyanna entusiasmada. - Desde então, nós jogamos sempre. 
E quanto pior o que acontece, mais divertido fica para resolvê-lo. Às vezes é muito desagradável, como quando papai foi para o céu e não ficou ninguém, a não ser as senhoras da Caridade. 
- Ou quando a colocam num quartinho sem quase nada dentro - resmungou Nancy. Pollyanna fez que sim com a cabeça. 
- Essa foi difícil no princípio - admitiu ela. - Principalmente porque eu me sentia muito sozinha no mundo. Eu não "joguei" naquela hora porque estava querendo coisas bonitas. Então me lembrei de como detestava ver as minhas sardas no espelho e vi aquela linda paisagem da janela. Veja, quando você está procurando coisas para ficar contente, você se esquece das outras coisas - como a boneca que eu queria, sabe? 
- Percebi - disse Nancy, engolindo em seco. 
- Mas geralmente não leva muito tempo. E, muitas vezes, já penso nas coisas boas quase sem pensar. Me habituei a jogar o jogo. Papai e eu gostávamos muito de jogar. Agora vai ser um pouco mais difícil, porque não tenho ninguém com quem jogar. Talvez a tia Polly queira jogar comigo - acrescentou ela pensativa. 
- Ela? Minha Nossa Senhora! - murmurou Nancy entre dentes. Depois, mais alto: - Ouça, Miss Pollyanna. Eu não sei se consigo jogar muito bem, porque não conheço nada desse jogo, mas se quiser posso jogar com você! 
- Oh, Nancy! - exultou Pollyanna, abraçando-a com força. - Isso é esplêndido, vamos nos divertir bastante. 
- Sim, talvez - concordou Nancy, com algumas dúvidas. - Mas não deve depositar grandes esperanças em mim. Nunca fui muito boa em jogos, mas vou fazer o possível. Você sempre terá com quem jogar - concluiu ela, enquanto as duas entravam juntas na cozinha. 
Pollyanna comeu seu pão e bebeu o leite com muito apetite. Depois, por sugestão de Nancy, dirigiu-se para a sala de estar, onde se encontrava a sua tia Polly, que levantou os olhos com firmeza. 
- Já jantou, Pollyanna? 
- Sim, tia Polly. 
- Estou muito aborrecida, Pollyanna, por tê-la obrigado a comer pão e leite na cozinha já no primeiro dia. 
- Não faz mal, estou muito contente com isso, tia Polly. Gosto muito de pão e leite, e também da Nancy. Não se preocupe. 
A senhora endireitou-se na cadeira, ficando mais ereta. 
- Pollyanna, você já devia estar na cama. Teve um dia muito penoso. Amanhã temos que organizar a sua vida e ver que roupas precisamos comprar. Nancy vai lhe dar uma vela. Tome cuidado com ela. O café da manhã é às sete e meia. Boa noite. 
Com naturalidade, Pollyanna dirigiu-se à tia e lhe deu um afetuoso abraço. 
- Estou muito contente com tudo que aconteceu hoje - disse ela, feliz. - Estou certa de que vou gostar muito de viver na sua companhia. Aliás, já sabia disso antes de vir para cá. Boa noite - disse, alegremente, enquanto saía da sala. 
"Mas que criança extraordinária", pensou Miss Polly. "Ela está contente com tudo - de ser castigada, de morar comigo, de tudo. Incrível!", exclamou Miss Polly, enquanto retomava a sua leitura. 
Quinze minutos depois, lá no sótão, a menina soluçava debaixo dos lençóis. 
- Papai, você que está junto dos anjos, eu não consigo jogar o jogo. Nem um pouco. Também não acredito que o senhor pudesse encontrar alguma coisa para ficar contente se tivesse que dormir sozinho no escuro. Se ao menos eu tivesse a tia Polly perto de mim, ou a Nancy... Seria mais fácil. 
Lá embaixo na cozinha, Nancy concluía a lavagem da louça, resmungando no seu modo habitual. 
- Se jogando aquele jogo maluco a gente fica contente por receber muletas quando se quer uma boneca, ou ir para aquele rochedo à procura de refúgio, então também quero aprender esse jogo. Ah, eu quero.

25 de outubro de 2012

Gentilmente


João trabalhava em uma multinacional e gostava de acordar bem cedo para chegar tranquilo em seu trabalho, há alguns dias começou a dar carona a um amigo e seguiam juntos para a empresa. O amigo observava que além da presteza em termos de horário, chegava bem antes do início do trabalho, João estacionava o carro bem distante da entrada da empresa, praticamente nas "últimas vagas" do estacionamento. Após vários dias com essa postura, o amigo sem entender arriscou a pergunta:

 - Você tem lugar fixo para estacionar?

 - Não - respondeu.

 - Por que, então você estaciona o carro tão longe do edifício para onde vamos, se chegamos tão cedo com centenas de vagas mais perto?

 - Porque assim deixamos as vagas mais próximas para os nossos colegas que chegam em cima da hora! - respondeu João









24 de outubro de 2012

Há algo que você sabe mas não sabe que sabe...ressignificando


   Assistindo a um programa de televisão, escuto o relato de uma moça à apresentadora dizendo ter medo extremo de elevador, a ponto de subir 27 andares a pé para visitar uma amiga em um prédio. Ela afirmou ter recorrido a um psiquiatra e a terapias com psicólogos de várias abordagens, os quais ela relatou não terem resolvido o seu problema  e por fim disse que já estava quase recorrendo a hipnose. Ao ouvir isso fiquei bastante intrigada, seria a hipnose o último recurso a ser buscado para auxiliar na solução de alguma questão? Seria algo ruim ou perigoso? E a pessoa a qual busca essa ferramenta de terapia não teria a mínima necessidade de tomar iniciativa e participar do processo de tratamento e solução de sua questão, como numa espécie de mágica? 

  Vamos nos informar sobre a hipnose terapêutica, para assim então podermos ter uma opinião consistente sobre ela e passar informações coerentes mundo à fora.




Há algo que você sabe mas não sabe que sabe. E logo que você descobrir o que é que você mas não sabe que sabe terás um sono tranquilo. 
(Milton H. Erickson)


  O histórico da hipnose mostra que ela aconteceu de várias formas ao longo do tempo. A sua exibição em palcos ou programas grotescos de televisão é a forma mais conhecida em que as pessoas tiveram contato com a hipnose, o que infelizmente tornou-a imersa em mitos e fantasias.

  Os estados de transe hipnótico são estados correlatos porém, o acesso até eles pode se dar de maneiras diferentes. É sobre essa maneira diferente a qual quero falar e esclarecer. A hipnose usualmente conhecida é a hipnose clássica, a qual o hipnoterapeuta afirma ter controle sobre o cliente e este é apenas passivo durante o tratamento, não participando do direcionamento do processo e apenas volta à consciência pela vontade do terapeuta. Hoje você vai conhecer a hipnose ericksoniana, desenvolvida pelo Dr. Milton Erickson, considerado pai da hipnose moderna. Vamos ressignificar este instrumento tão valioso e enriquecedor que pode ajudá-lo a se ajudar quando você quiser.

  A hipnose é um estado ampliado de consciência, onde a atenção e a percepção do indivíduo fica focalizada e voltada para o seu interior. Segundo Teresa Robles em Concerto para Quatro Cérebros, nosso cérebro automaticamente entra em transe a cada 60 a 90 minutos como uma forma de descanso e elaboração de suas atividades, aquele momento em que seu pensamento parece estar distante, por exemplo: quando você está dirigindo e se prende em seus pensamentos e sequer faz ideia de como conseguiu chegar no lugar que você queria sem depositar a sua atenção no trânsito. Isso significa que todos nós já experimentamos a hipnose e não foi nenhum bicho de sete cabeças. Ela é mais natural do que podemos imaginar.

  A hipnose passou por várias transformações e fazendo parte do contexto da hipnose moderna, temos a hipnose ericksoniana. Tenho carinho imenso por esta por ser um instrumento terapêutico que respeita as singularidades e jeito de ser do paciente/cliente. A hipnose ericksoniana faz parte da abordagem terapêutica criada pelo Milton Erickson, portanto ela é apenas um dos vários recursos utilizados para a melhoria da qualidade de vida do paciente. É uma forma de se estabelecer um processo de comunicação e interação do terapeuta com o paciente/cliente, onde cada um tem os seus papéis e o paciente participa ativamente e influi no direcionamento do processo terapêutico. Infelizmente,  alguns mitos ainda rodeiam o universo da hipnose sendo importante conhecê-los para abandonarmos informações que não têm sustentação alguma.

  O hipnoterapeuta tem poder sobre o paciente: como comuniquei anteriormente, a hipnose ericksoniana não ocorre essencialmente pela ação e poder do hipnoterapeuta, mas pela interação e aceitação da pessoa que entra em transe e deseja experimentar o que o hipnoterapeuta oferece (com base no que foi coletado durante as sessões e utilizando os próprios recursos do paciente) portanto, o paciente apenas se envolve se esta for a vontade dele;

 O hipnoterapeuta controla o desejo e a mente do paciente: esse é um dado muito propagado pelas pessoas, a hipnose acessa a mente inconsciente, o paciente pode ou não aceitar o que for dito pelo hipnoterapeuta, já que a mente inconsciente protege o ser humano daquilo que ele não deseja;

 A pessoa fica inconsciente durante o transe: em todo o momento a pessoa permanece acordada e por nenhum momento perde a consciência, do ponto de vista físico ela tem um relaxamento muscular, respiração suave e dessa forma a pessoa encontra-se relaxada, mas alerta. Dessa forma, a pessoa estará totalmente presente;

  Algumas pessoas dizem ter medo da hipnose por achar que ela pode prejudicar a saúde: a hipnose é um estado que permite um contato interior consigo mesmo, por si só isso já é benéfico. Entretanto, a hipnose deve ser utilizada por profissionais habilitados, pois em mãos inapropriadas pode causar algum mal, como já disse Teresa Robles: "Aprender a induzir um transe é igual a aprender a aplicar uma injeção. Qualquer um capaz de fazê-lo, mas para saber o que está se aplicando é necessário o conhecimento médico. E pode-se matar ou adoecer alguém com uma injeção".

  Por fim, compreende-se que a hipnose é um procedimento terapêutico extremamente sério e útil no tratamento das diversas patologias e não realiza milagres, como numa espécie de mágica. É uma ferramenta da psicologia autorizada e regulamentada pelo CRP na sua Resolução N° 013/00 de 20 de dezembro de 2000. Portanto, é preciso estar habilitado para usá-la.



Bianca Galindo